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ENTREVISTA: Paulo Fernandes, de volta à provedoria do HCNSA, fala sobre as dificuldades e expectativas para a gestão

Seguindo a série de entrevistas da Gazeta de Rosário com personalidades em destaque na cidade, Paulo Fernandes, que no fim de 2017 voltou a assumir a provedoria do Hospital de Caridade Nossa Senhora Auxiliadora (HCNSA) conversou na manhã desta sexta-feira (09) com a reportagem do jornal.

Em sua sala na entidade, ele falou sobre seu retorno à administração hospitalar após pouco mais de dois anos de intervenção do Poder Público na casa de saúde. A situação financeira da instituição foi um dos motivos apontados pela gestão Antonello, à frente do Executivo na época, para decretar estado de calamidade e passar a gerir o HCNSA.

Foto: Rhayza Moreira / Gazeta de Rosário

Gazeta de Rosário – O senhor assumiu novamente o hospital em fins do ano passado. O que foi possível fazer nesses primeiros dois meses de gestão?

Paulo Fernandes – Embora o esforço do Poder Público Municipal em manter as contas, e o bom funcionamento do hospital, de maneira que satisfaça a comunidade, tivemos que tomar algumas medidas mais urgentes, em relação ao funcionamento do hospital. Imediatamente nós conseguimos um empréstimo de R$ 900 mil junto ao Banrisul, que é concedido a todos os hospitais filantrópicos do estado por intervenção da federação dos hospitais filantrópicos, com valor de juros subsidiado. De onde pudemos fazer frente aos encargos mais urgentes, que quando assumimos era o pagamento de 13º salário dos funcionários, de folha médica, e foram pagos.

GR – E o que mais precisa ser feito? Quais as principais demandas e problemas a serem resolvidos nesse momento?

PF – O hospital é muito dinâmico, as coisas aqui acontecem muito rápido, e as necessidades vem de uma maneira que não se consegue planejar e nem prever. Temos que estar à disposição da comunidade em todos os setores do hospital. Como um acidente que possa ocorrer nas nossas rodovias, como um surto de alguma enfermidade, o setor de obstetrícia também muito bem aparelhado para que possa atender as mamães, e toda essa gama de procedimentos. O hospital tem que estar preparado. E nós estamos sempre nos preparando para isso, até mesmo com ideias de obras e reformas.

GR – O hospital que hoje o senhor recebe, está em melhor situação de quando o senhor saiu?

PF – Em uma entidade de cunho filantrópico todas as pessoas que vem prestar seu serviço desinteressadamente para a comunidade não merecem julgamento, apenas agradecimentos. Então as pessoas que estiveram aqui, que trabalharam de uma maneira desprendida para atender a comunidade na área de saúde, a gente tem que agradecer. Eu não estou aqui para julgar se o hospital estava melhor ou pior, estou aqui para prover o hospital das suas necessidades aprendendo com o passado. As dificuldades que tivemos no passado, com esse aprendizado não se repetirão.

GR – Sabe-se das grandes despesas que o hospital tem e as dificuldades em pagá-las. O senhor considera o quadro de funcionários dentro das necessidades do hospital ou inchado?

PF – Eu acho que o quadro funcional está compatível com a realidade do hospital. Durante o período de intervenção houve um aumento em torno de 5% de funcionários, que não é um aumento exagerado, mas também houve melhoras no atendimento, nos serviços. Eu acho que o hospital não tem uma quantidade de funcionários acima das suas necessidades. São todos funcionários qualificados, que tem uma experiência muito grande em todos os setores de área hospitalar.

GR – O senhor foi retirado da provedoria do hospital no governo Antonello, que tinha como vice a atual prefeita. Como o senhor encara esta situação e como está a relação da atual provedoria com o Executivo?

PF – A minha relação com prefeita Zilase Rossignollo Cunha (PTB) é, além da relação de amizade que a gente já tem há alguns anos, é a melhor possível. Quanto atitude da antiga gestão, é uma atitude que foi, ao meu ver, bastante intempestiva, uma vez que não teve um diálogo com a provedoria na época. Mas a gente compreende pelo fato de seu cargo lhe dar poderes para esse tipo de intervenção. Não é uma atitude simpática com a comunidade, uma vez que o hospital é dirigido por um conselho deliberativo de 25 entidades de cunho assistencial e filantrópico, que escolhe essa diretoria de maneira democrática. Acho que foi uma agressão à democracia, mas entregamos o hospital da melhor forma possível. E essa minha volta à convite da prefeita mostra que ela não concordava com a minha saída na época.

GR – Como encara o fato da provedoria ter sido devolvida às entidades após tanto tempo do hospital sob intervenção do município?

PF – Acho que essa volta é a volta do estado de direito. Porque o hospital tem o seu estatuto, que o regulamenta, e a devolução faz com que as entidades possam devolver os seus dirigentes, sempre com a ajuda dos poderes constituídos, que devem estar aliados ao hospital, e não de uma maneira que faça uma intervenção negativa.

GR – Uma das questões mais debatidas e divulgadas nos últimos anos são as verbas em atraso, que deveriam ser repassadas pelos governos federal e estadual. Como está essa situação atualmente? Existe algum valor em atraso? De quanto e referente à que?

PF – A prestação de serviço do hospital à comunidade que é remunerada pelo governo dificilmente está em dia. O hospital sempre recebe pelos seus serviços de 25 a 30 dias após a realização dos mesmos. Então, se as contas encerram dia 30, nós teremos até dia 25 ou 30 do mês conseguinte para receber. Isso foi sempre uma norma do governo, que tem tentado ressarcir essas despesas em um prazo mais curto, mas até agora não tem conseguido. Isso faz com que os hospitais se socorram via empréstimos bancários, às vezes pagando juros que não deveriam pagar, mas para manter o hospital em pleno funcionamento e o salário dos funcionários em dia, isso se faz necessário. E esperamos tempos melhores, que os governos olhem melhor para os hospitais e pelas pessoas que trabalham para manter esse serviço, que é de grande valia para o município.

GR – O senhor é uma pessoa que sempre esteve em destaque no município, ocupando posições de chefia frente a projetos de relevância para a população, como a presidência da Associação Gauderiada da Canção Gaúcha, que organiza um dos maiores festivais nativistas do estado. Como essa experiência frente a tantos desafios pode ser usada na gestão de uma instituição tão determinante para a sociedade rosariense como é o hospital?

PF – Com o passar do tempo, pela experiencia que a vida nos traz, fazem com que a gente seja mais tolerante, mais harmônico, mais conciliador, e tudo o que adquirimos ao longo da vida, a gente pode usar, tanto na Gauderiada quanto no hospital, para melhorar o serviço que prestamos. Nós temos muitos desafios, tanto na ordem financeira quanto na ordem de pessoal, mas ao longo desses anos aprendemos a lidar com tudo isso. De um lado, a gente lida com lazer e alegria, e do outro lidamos com a dor das pessoas. Quem chega aqui [no hospital], principalmente quem tem uma pessoa internada aqui, geralmente não está em seu estado emocional normal. Estão sofrendo, apreensivas ou na expectativa por melhora ou tratamento. Então essas pessoas às vezes se excedem, mas temos que entender essas questões e ser bastante tolerantes.

GR – Após tantos anos de experiência, algo mudou em sua concepção de como solucionar e enfrentar os problemas que se apresentam no âmbito da saúde e da administração de um hospital? O quê?

PF – Cada ano que passa, e cada ano à frente do hospital, a gente ganha com a experiência. Isso tudo tem nos proporcionado olhar as dificuldades de uma maneira bastante diferente ao longo do tempo, mas sempre pensando no bem-estar das pessoas, na recuperação da sua saúde, e no serviço, que pra mim satisfaz muito. Sou grato a essa oportunidade de prestar esse serviço à comunidade que há 40 anos acolheu a mim e minha família.

Perfil

Paulo Fernando Fernandes Siqueira, é médico veterinário, tem 70 anos, natural da cidade de Candelária – RS, filho de Lourival Siqueira Fernandes e Elma Edite Fernandes. Casou-se com a enfermeira Ilona Pfaff Fernandes, com quem teve três filhos, Daniel, Luciana e Tiago.

Atualmente ocupa a presidência da Associação Gauderiada da Canção Gaúcha, que organiza e realiza o festival nativista anual na cidade, e reassumiu no fim de 2017 a provedoria do Hospital de Caridade Nossa Senhora Auxiliadora.

Através de um convite feito por Romeu Andreazza em 1983, passou a integrar o corpo administrativo do HCNSA, onde desde então ocupou diversos cargos. Em 2008 passou a ser provedor da entidade, de onde ficou afastado somente durante os dois anos de intervenção do Poder Executivo.

Reportagem e fotos: Rhayza Moreira / Gazeta de Rosário

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